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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Para ser eterno basta 1 minuto

  Como é difícil para nós reconhecermos nossas próprias fraquezas. Talvez a aceitação mais difícil seja a da limitação de nossa própria existência. Sabemos que não somos eternos, mas jamais haverá qualquer meio para se descobrir o último dia ou para prolongar nossas vidas por pelo menos mais um século (e será que isso seria bom?). Eis o grande sonho da alma humana: ser eterno - e, contraditoriamente, a morte torna-se o tema que mais nos tortura em vida e o que nos faz perder nosso tão precioso tempo com angústias e tristezas.
  Ora, pois a receita para ser eterno é simples. Se somos capazes de fazer cada momento eterno e de sermos eternos no coração de outras pessoas, temos nossa missão muito bem cumprida. Pensando assim, não temos tempo a perder senão aproveitando cada minuto sagrado que recebemos de presente. É aí que tudo passa a ter grande significado - passamos a entender que cada minuto que outras pessoas passam conosco são presentes que elas deixam para nós e que devemos retribuir a outros que passam por nós. Mas e aqueles que nada trazem de bom e tornam os momentos desagradáveis? A eles, damos o tempo, para que eles façam a mesma descoberta que fazemos um dia. Então, eles descobririam que, para ser feliz, basta apenas um minuto...
   ...Um minuto? Sim. O verdadeiro valor de tudo o que existe está no minuto que dedicamos não só à nossa felicidade, mas também à dos outros (e, consequentemente, teríamos igualmente a nossa). E, assim, aprenderíamos a valorizar os próximos minutos seguintes, pois daríamos sentido a cada coisa que fizéssemos. Assim, ninguém desejaria parar o tempo, mas que os próximos minutos viessem para que cada um pudesse valer o máximo possível. Será mesmo tão simples assim? É só fazer o teste, são apenas 60 segundos.
    Resumindo: amar nos faz eternos.
   Temos sido eternos em cada minuto de nossa existência?
   Temos amado em cada minuto de nossa existência?

S.C.P.S.



domingo, 29 de setembro de 2013

Lispector

Clarice dizendo tudo, mais uma vez....

A perigosa arte de escrever

'Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. Isso eu escrevi uma vez. Mas está errado, pois que, ao escrever, grudada e colada, está a intuição. É perigoso porque nunca sei o que virá - se se for sincero.Pode vir o aviso de uma destruição, de uma auto-destruição por meio de palavras. Podem vir lembraças que jamais se queria vê-las à tona. O clima pode se tornar apocalíptico. O coração tem que estar puro para que a intuição venha. E quando, meu Deus, pode-se dizer que o coração está puro? Porque é difícil apurar a pureza: às vezes no amor ilícito está toda a pureza do corpo e alma, não abençoado por um padre, mas abençoado pelo próprio amor. E tudo isso pode-se chegar a ver - e ter isso é irrevogável. Não se brinca com a intuição, não se brinca com o escrever: a caça pode ferir mortalmente o caçador.

Clarice Lispector -  A descoberta do mundo

domingo, 27 de dezembro de 2009

Eu sei, mas não devia



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez paga mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

sábado, 14 de novembro de 2009

Das vantagens de ser bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector


"A boba"- Anita Malfatti

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Paredes Vermelhas


  Desejou tantas vezes estar ali novamente, mas, quando esteve, achou tudo muito diferente. Nenhuma explicação para tanta destruição. Certificou-se de que a porta não estava arrombada. As janelas permaneceram trancadas. As paredes continuavam vermelhas e intactas. Mesmo com luzes acesas, a obscuridão lhe trazia medo e o vazio daquela sala invadia o seu interior. Em lugar da paz que ali encontrava, angústia. À medida em que fechava e abria os olhos, o espaço tornava-se cada vez menor. 

  Ficou parada, porém, já não podia respirar. As paredes encolhiam a sala.

  Decidiu não mais abrir os olhos. Entregou-se à aflição da espera pelo fim e vieram-lhe à mente todas as outras vezes que ali esteve: as pequenas felicidades, a brisa e a luz que entravam pela janela nos dias de sol, como música vinda de longe.
  Aos poucos, a sonoridade entrou pelos seus ouvidos e sentiu o calor dos raios de sol batendo em seu rosto. 
  Agora, sem medo, abria os olhos, ao mesmo tempo em que seu coração se enchia. Aquele lugar estava tão espaçoso e iluminado que desejou nunca mais sair dali.

Não era o fim, mas apenas o grande começo.

S.C.P.S.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Torre de Babel



Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras.

Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram.
E disseram uns aos outros: “Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.” Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa.
Depois disseram: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.”
Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens.
“Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos.
Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”
Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade.
Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra.

Gn 11,1-9

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Água Viva

"(...) Oh, como tudo é incerto. E no entanto dentro da Ordem. Não sei sequer o que vou te escrever na frase seguinte. A verdade última a gente nunca diz. Quem sabe da verdade que venha então. E fale. Ouviremos contritos.
... eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia o quanto era belo e sei que sabia que eu não o queria para mim. Sorriu porque não sentiu ameaça alguma. É que os seres excepcionais em qualquer sentido estão sujeitos a mais perigos que o comum das pessoas. Atravessei a rua e tomei um táxi. A brisa arrepiava-me os cabelos da nuca. E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim - gosto é das pessoas um pouco feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certa forma dera-me muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo isso eu não entendia.
A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós. Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
E não tem fórmulas.
(...)"

Clarice Lispector

domingo, 31 de maio de 2009

A janela


  Desperto lentamente: primeiro os olhos; em seguida, com certa dificuldade, o corpo; só então a consciência, ainda perdida entre o último sonho e a realidade, que surge no mesmo instante em que abro a janela. Tudo se transforma: segundos atrás, havia somente escuridão. Agora, a realidade me cega por algum momento. Com muito esforço para manter os olhos abertos, em uma mistura de dor e curiosidade, torço para que aquela paisagem tenha se modificado. Uma decepção: é a mesma imagem de ontem e de muito tempo. 
  O velho balanço, para lembrar a passagem do tempo; as plantas, sem flores e desfolhadas, avisando a chegada do outono- mais uma estação de poucas expectativas; meu cachorro, estirado ao sol, em mais um dia sem grandes aventuras. 
  Nada transformou o mundo diante da minha janela. Imagino como será ruim tê-lo assim amanhã. Seria maravilhoso achá-lo muito mais atrante que qualquer outro no qual se aviste uma praia, ou uma montanha, afinal, é a minha janela.
  Talvez a felicidade consista em aprender a olhar para ela e para o mundo que está muito além daquela paisagem, porém, muito mais próximo. O grande desafio é despertá-lo, enxergar a janela e abri-la.

S.C.P.S.

sábado, 30 de maio de 2009

O monstro

  Não me lembro da forma que possuo, não sei por que assustava tanto lá fora. Nunca arrisquei me olhar no espelho, porque poderia ser a mais terrível das experiências. A minha voz deve ser mais medonha e ensurdecedora que o silêncio que me perseguia até procurar por alguma outra vida nesta escuridão completa na qual tenho vivido. 
  Estaria realmente feliz se estas vozes que me fazem companhia também possuíssem forma e discordassem ao menos uma vez das coisas que digo.

S.C.P.S.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Carta



  Sinto grande pesar pelas tantas dúvidas a seu respeito. Porém, elas são necessárias, do contrário, congelaria o pouco que ainda vive neste alguém que tantas vezes desconheço. Conheço, sim, por fora, cada expressão, além de minha própria sombra. Por dentro não vejo, sinto. Contudo, o que sinto é infinito. Não existe espelho para identificar o que há no mundo interior. Aliás, não se pode ver com um simples desejo. Aos poucos, o que ali existe se manifesta. Mas não é tudo. Talvez nunca seja inteiramente conhecido.
  O que conhecia, até então(e que imaginava ser tudo o que ali havia), pertencia à superfície. A profundidade que agora percebo é ainda muito pequena, mas infinitamente maior que aquela vista há algum tempo. Não me arrisco mais a medi-la.
Você está lá, tão intenso e presente quanto antes. Às vezes em silêncio, às vezes gritando, ou simplesmente me fazendo pulsar.
  Todos esperam muito por você, o maior, o eterno, o sublime, o puro, o verdadeiro, o que ilude, o que enlouquece(ouvi tantos falarem isso!). Talvez, então, deva confiar em sua adversária, a razão, que, ao menos, me põe os pés no chão, já que muitos nada tiveram em troca de suas aflições. Não quero ser mais um. Arriscar-me-ia por você, então?
  (...)
  Pois então arrisco-me. Atiraria-me ao fogo, quantas vezes fosse preciso, para sentir que, por dentro, algo tão grandioso está vivo e me mantém vivo. Cada vez que rendo-me desta forma, dou passos mais largos rumo ao misterioso universo de minha essência, ao mesmo tempo em que levo o que existe de mais surpreendente à superfície, a fim de que não o guarde apenas comigo.
  O que tenho, no fundo, são esperanças pouco manifestas, mas sem estas virtudes tão persistentes que nele moram, meu infinito seria apenas um universo escuro e vazio e eu, um mundo incompleto, superficial e desconhecido.

S.C.P.S.

domingo, 29 de março de 2009

Um dia para não ser esquecido

  Aquela esquina da rua Iraí foi sempre muito movimentada. No fim de tarde do dia 20, eu andava pela calçada junto aos outros, que iam e vinham com passos pouco mais apressados e ares receosos, algumas olhando para o chão, outras para o infinito. 

  E lá, sentada, estava aquela mulher pouco notada. Quando a observavam, era sempre como se sua presença fosse alguma ameaça, ou como se ninguém estivesse ali, pois logo em seguida viravam o rosto e seguiam em frente. Ela parecia não se incomodar. Apenas retribuia os olhares, mas não os encarava com agressividade, não roubava nem xingava. Era calada. Tinha a expressão triste e não demonstrava revolta. Devia ter quase sessenta anos, apresentava rugas, cabelho grisalho, pele morena, roupas sujas, rasgadas e aparentava ter alguma doença mental. Algumas vezes eu a vi se levantar, caminhar até o cesto de lixo e começar a revirá-lo, provavelmente em busca de comida ou algo que a interessasse. Quando uma criança passava, seu rosto se transformava e ela sorria.
  No instante em que eu a olhava quando andava por ali, um carro estacionou ao meu lado e vieram dois homens e uma mulher em sua direção. Eram do Programa de População de Rua da prefeitura. Aproximaram-se dela e tentaram convencê-la de que teriam que levá-la. Fiquei parada mais adiante e a vi entrar em pânico. Não agrediu as pessoas da equipe, entretanto dizia em voz alta que não podiam levá-la de seu lar. Chorava muito, repetindo que morava ali. Quando tocaram seus braços, gritou que fugiria e voltaria para aquela esquina de qualquer jeito. 
  Formou-se um círculo de curiosos em sua volta, assustados com aquela triste cena. Todos olhavam-na com muita pena, até que os três decidiram não encaminhá-la, porém disseram-lhe que retornariam. Em seguida partiram e cada um tornou a seguir seu caminho. Ela sentou-se no chão e voltou os olhos para baixo.
 Continuei andando e relembrando os acontecimentos. Era difícil compreender os motivos pelos quais ela queria continuar vivendo na rua e ainda chamar aquilo de lar. Se deixasse que a socorressem, teria uma casa de verdade, cama, roupas novas e comida, uma vida mais digna, como todos têm direito. De qualquer forma, eu tinha esperanças de não vê-la mais morando ali. 
  Duas semanas depois, no mesmo horário, me surpreendi com uma moça que conversava calmamente com a senhora e estava abaixada, bem próxima a ela. Não pude ouvir as perguntas e respostas, mas ambas estavam muito tranquilas e a moça sorria. Foi uma cena incomum. Enquanto seguia, vi pessoas observando, também surpresas. Uma mulher comentava com a amiga que a moça "devia ser outra maluca".
  Na semana seguinte, quando havia acabado de virar a esquina, ouvi estacionar um carro. Pude perceber a voz da senhora, que não parecia indignada. Para meu espanto, pela primeira vez ouvi risos. Me virei imediatamente e encontrei a moça junto aos dois rapazes e à mulher, que vieram nas semanas anteriores, diante da senhora com uma boneca nos braços, como uma criança recebendo um presente que esperava há muito tempo. Ela chamava a boneca de filha. Seu rosto havia se transformado e ela sorria. Abraçou-a com força, caminhou até o carro e partiu. Todos em volta estavam admirados.

S.C.P.S.

quarta-feira, 25 de março de 2009

[...]

Nada que existe escapa à transfiguração, não saberei que existi daqui a poucos anos.
Fez-se muitas perguntas mas nunca pode responder:
parava para sentir.
A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem
ao estado de coisas que ele criou.
eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando,
mas usando de uma nova modalidade de respirar
não é o grau que separa a inteligência do gênio, mas a qualidade.

Medo de não amar, maior que o medo de não ser amado.

Que façam harpas de meus nervos quando eu morrer. ... a vida sempre nos deixa intocados. conto apenas o que vi, não o que vejo (não sei repetir)
Lalande - lágrimas de anjo. É o mar, que nenhum olhar ainda viu.
a beleza das palavras, natureza abstrata de Deus

Se amar um marinheiro terei amado o mundo inteiro.

essa tristeza leve é a constatação de viver
Meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida
posso parir um filho e nada sei
compreende a vida porque não é suficientemente inteligente para não compreendê-la -
Bom é viver.
Mau é... Mau é não viver... - Morrer? - Não, não. Mau é não viver...
morrer é diferente do bom e do mal
É curioso como não sei dizer quem sou.
Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer,
porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto,
como o que sinto se transforma lentamente no que digo.

Clarice Lispector-Fragmentos diversos perdidos em minha agenda


domingo, 15 de março de 2009

O homem e o mundo

"Não é o homem um mundo pequeno, que está dentro do mundo grande, mas é um mundo, e são muitos mundos grandes, que estão dentro do pequeno. Basta por prova o coração humano, que sendo uma pequena parte do homem, excede na capacidade e toda a grandeza e redondeza do mundo. Pois se nenhum homem pode ser capaz de governar toda esta máquina do mundo, que dificuldade será haver de governar tantos homens cada um maior que o mesmo mundo, e mais dificultoso de temperar que todo ele? A demonstração é manifesta. Porque nesta máquina do mundo, entrando também nela o céu, as estrelas têm seu curso ordenado, que não pervertem jamais; o sol tem seus limites e trópicos, fora dos quais não passa; o mar com ser um monstro indômito, em chegando às areias, pára; as árvores, onde as põem não se mudam, os peixes contentam-se com o mar, as aves com o ar, os outros animais com a terra. Pelo contrário, o homem, monstro, ou quimera de todos os elementos, em nenhum lugar pára, com nenhuma fortuna se contenta, nenhuma ambição nem apetite o falta: tudo perturba, tudo perverte, tudo excede, tudo confunde e como é maior que o mundo, não cabe nele."

Pe. Antônio Vieira

domingo, 1 de março de 2009

Eu, sujeito de minha época

  Eu, em meio a tantas coisas que se transformam à minha volta, sou mais alguém tentando se adaptar a essas transformações. Mas não posso (e não quero) ser apenas mais uma pessoa dentre as seis bilhões que existem. Preciso me situar, conhecer a cada dia um pouco mais sobre mim mesma, para compreender o que me torna única e qual o meu papel, já que existem cada vez mais opções, deixando as escolhas mais difíceis ao longo do tempo.
  Até me conhecer tem sido complicado. Os sentimentos, conceitos, ideais, que naturalmente pertencem a cada um, aos poucos foram englobados pelo coletivo, graças aos meios de comunicação de massa. É a globalização. A omissão do “meu” em detrimento do “nosso”. Sei responder com certa facilidade sobre os problemas da África, a crise mundial e a insegurança das pessoas com o aumento da violência. Mas quando as perguntas são mais individuais, como quem sou eu, o que é felicidade para mim e por que esta é minha opinião, as respostas não surgem com a mesma simplicidade e estas são as mais complexas, porém não deveriam ser. É irônico, pois a pessoa que mais me conhece sou eu mesma!
  Gosto de imaginar como outras pessoas, em décadas e séculos passados, faziam determinadas coisas sem ao menos sonhar que aquilo poderia ser muito mais prático. É incrível mesmo, tanto que é difícil pensar como seria eu viver naquela época e, por isso, sou grata por ter nascido na era da tecnologia. Era tudo tão complicado, demorado... Escrever, por exemplo. Sem a caneta, imagino que levaria muito mais tempo para redigir este texto. Mas também penso que outras coisas eram mais fáceis, como sentar na calçada com os vizinhos no final da tarde. Com tanta violência, abrir a porta de casa hoje tornou-se um risco. E quem são meus vizinhos?
  Nas próximas décadas, virão muito mais novidades. Entretanto, com elas surgirão também mais problemas, mais opções e escolhas ainda mais difíceis. Saberei tanto sobre o mundo e tão pouco sobre mim...

[...]

S.C.P.S.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A arte de ser feliz...

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio,
ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem,
para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles