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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ser frágil não é maldição para mulher

"Mulher é desdobrável. Eu sou." Adélia Prado


Hoje, dormi um sono pesado, após tanto tempo em guerra. Tenho a impressão de que foram mais de cem anos.
Carreguei, por toda a trajetória, bandeiras e armaduras tão pesadas quanto meu corpo pudesse suportar. Com as melhores estratégias, combati os inimigos mais temíveis. Contudo, o pior de todos eles era também meu aliado: esteve comigo em todas as batalhas, deu-me as armas e ensinou-me a manejá-las. Morava em mim.
Estive em lugares frios, sórdidos, sombrios; perseguindo cada adversário, a fim de não sobrar um que pudesse ganhar forças e trazer o abalo de uma revanche. Ultrapassei fronteiras, até então inimagináveis, abrindo caminhos às futuras grandes conquistas. Senti terríficas dores e eram tamanhas as necessidades que cada segundo era enfrentado como uma nova árdua batalha. Não apenas vi o fogo e a escuridão, como pude senti-los na alma, cada vez que deparava-me com as misérias humanas. Estas, sim, foram grandes armadilhas.
Ouvi gritos ensurdecedores e disparos sem interrupção. Olhava a paisagem: totalmente destruída. Sorria, em meio às adversidades, por sentir-me viva.
Faço, agora, deste silêncio, o grande triunfo de minha existência.

S.C.P.S.

domingo, 29 de março de 2009

Um dia para não ser esquecido

  Aquela esquina da rua Iraí foi sempre muito movimentada. No fim de tarde do dia 20, eu andava pela calçada junto aos outros, que iam e vinham com passos pouco mais apressados e ares receosos, algumas olhando para o chão, outras para o infinito. 

  E lá, sentada, estava aquela mulher pouco notada. Quando a observavam, era sempre como se sua presença fosse alguma ameaça, ou como se ninguém estivesse ali, pois logo em seguida viravam o rosto e seguiam em frente. Ela parecia não se incomodar. Apenas retribuia os olhares, mas não os encarava com agressividade, não roubava nem xingava. Era calada. Tinha a expressão triste e não demonstrava revolta. Devia ter quase sessenta anos, apresentava rugas, cabelho grisalho, pele morena, roupas sujas, rasgadas e aparentava ter alguma doença mental. Algumas vezes eu a vi se levantar, caminhar até o cesto de lixo e começar a revirá-lo, provavelmente em busca de comida ou algo que a interessasse. Quando uma criança passava, seu rosto se transformava e ela sorria.
  No instante em que eu a olhava quando andava por ali, um carro estacionou ao meu lado e vieram dois homens e uma mulher em sua direção. Eram do Programa de População de Rua da prefeitura. Aproximaram-se dela e tentaram convencê-la de que teriam que levá-la. Fiquei parada mais adiante e a vi entrar em pânico. Não agrediu as pessoas da equipe, entretanto dizia em voz alta que não podiam levá-la de seu lar. Chorava muito, repetindo que morava ali. Quando tocaram seus braços, gritou que fugiria e voltaria para aquela esquina de qualquer jeito. 
  Formou-se um círculo de curiosos em sua volta, assustados com aquela triste cena. Todos olhavam-na com muita pena, até que os três decidiram não encaminhá-la, porém disseram-lhe que retornariam. Em seguida partiram e cada um tornou a seguir seu caminho. Ela sentou-se no chão e voltou os olhos para baixo.
 Continuei andando e relembrando os acontecimentos. Era difícil compreender os motivos pelos quais ela queria continuar vivendo na rua e ainda chamar aquilo de lar. Se deixasse que a socorressem, teria uma casa de verdade, cama, roupas novas e comida, uma vida mais digna, como todos têm direito. De qualquer forma, eu tinha esperanças de não vê-la mais morando ali. 
  Duas semanas depois, no mesmo horário, me surpreendi com uma moça que conversava calmamente com a senhora e estava abaixada, bem próxima a ela. Não pude ouvir as perguntas e respostas, mas ambas estavam muito tranquilas e a moça sorria. Foi uma cena incomum. Enquanto seguia, vi pessoas observando, também surpresas. Uma mulher comentava com a amiga que a moça "devia ser outra maluca".
  Na semana seguinte, quando havia acabado de virar a esquina, ouvi estacionar um carro. Pude perceber a voz da senhora, que não parecia indignada. Para meu espanto, pela primeira vez ouvi risos. Me virei imediatamente e encontrei a moça junto aos dois rapazes e à mulher, que vieram nas semanas anteriores, diante da senhora com uma boneca nos braços, como uma criança recebendo um presente que esperava há muito tempo. Ela chamava a boneca de filha. Seu rosto havia se transformado e ela sorria. Abraçou-a com força, caminhou até o carro e partiu. Todos em volta estavam admirados.

S.C.P.S.

domingo, 8 de março de 2009

Que seria do mundo sem ELAS?


Hoje sendo um dia tão especial, não posso deixar de fazer uma homenagem, simples, comparada ao quanto este dia representa para nós.
Então fiz algumas seleções que transmitem o sentimento de hoje:



Saber Viver

Não sei...
Se a vida é curta

Ou longa demais pra nós,

Mas sei que nada do que vivemos

Tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

Colo que acolhe,

Braço que envolve,

Palavra que conforta,

Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,

Olhar que acaricia,

Desejo que sacia,

Amor que promove.


E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela

Não seja nem curta,

Nem longa demais,

Mas que seja intensa,

Verdadeira, pura...

Enquanto durar


Cora Coralina


Receita de mulher

[...]
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer bebe
r
O fel da dúvida.
Oh, sobretudo

Que ela não perca nunca, não importa em que mundo

Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade

De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma

Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume;
e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto

Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina

Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição

Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Vinícius de Moraes


E para completar, duas
mulheres que me inspiram...





"E ela não
passava de u
ma mulher... inconstante e borboleta como todas."

Clar
ice Lispector



Enfim, mulheres, sintam-se plenamente realizadas no dia de
hoje e que ele sirva de grande incentivo para continuarmos na luta todos os dias, por mais espaços a serem conquistados...
Que seria do mundo(ou dos homens) sem a nossa graça, sensibilidade, força, delicadeza, o nosso jeito próprio de sentir o mundo, de vê-lo com outros olhos e todas as nossas conquistas já feitas?
O dia da mulher é dedicado principalmente a todas que são exemplos de força, coragem e persistência na luta pela igualdade de direitos.



FELIZ DIA DA MULHER!!!
;]